Educativo · Cirurgia Plástica
Muita gente ainda não sabe: a cirurgia plástica vai muito além dos procedimentos estéticos. Entenda as duas grandes áreas da especialidade — reparadora e estética — e os principais procedimentos de cada uma, explicados em linguagem simples.
Por Dra. Julia Facchi · CRM-SP 220.746 / RQE 146.320
Cirurgia plástica não é sinônimo de cirurgia estética. A especialidade se divide em duas grandes áreas — a reparadora (ou reconstrutora) e a estética — e reúne um número muito maior de procedimentos do que costuma aparecer nas redes sociais. Este guia explica, em linguagem acessível, o que significa cada termo técnico e para que serve cada procedimento.
A cirurgia plástica reparadora (ou reconstrutora) trata alterações causadas por doenças, traumas ou malformações congênitas, com foco em restaurar função e anatomia. É uma parte fundamental da especialidade, frequentemente menos conhecida do público do que a cirurgia estética.
O cirurgião plástico participa da retirada de tumores cutâneos (como carcinomas basocelulares, espinocelulares e melanomas) e de tumores de partes moles — músculo, gordura, tecido conjuntivo —, realizando a ressecção da lesão e, quando necessário, a reconstrução da área operada com retalhos ou enxertos de pele.
Em queimaduras extensas ou profundas, a cirurgia plástica atua tanto na fase aguda — cobrindo áreas que perderam pele com enxertos — quanto no tratamento das sequelas, como cicatrizes retráteis e contraturas que limitam o movimento.
Após uma mastectomia (retirada da mama, geralmente por câncer), a reconstrução mamária devolve o volume e o contorno da mama, com prótese, expansores teciduais ou tecido da própria paciente, podendo ser feita no mesmo tempo cirúrgico da mastectomia ou posteriormente.
Traumas, tumores ou infecções que comprometem braços, pernas, mãos e pés podem exigir reconstrução com retalhos de pele, músculo ou osso, buscando recuperar tanto a função quanto a aparência do membro.
O escalpelamento é o arrancamento traumático do couro cabeludo, geralmente por acidentes com máquinas ou cabelos presos em equipamentos em movimento. É uma urgência que pode exigir reimplante microcirúrgico do couro cabeludo ou cobertura da área com enxertos e retalhos.
Fraturas dos ossos da face — órbita, maxila, mandíbula, ossos nasais — decorrentes de acidentes ou agressões são tratadas pelo cirurgião plástico, que realiza a redução das fraturas e, quando necessário, fixação com placas e parafusos para restaurar a função mastigatória, a respiração e o contorno facial.
A microcirurgia é a técnica que permite reconectar vasos sanguíneos e nervos milimétricos sob magnificação (microscópio ou lupas de aumento), usada em reimplantes de partes amputadas e em reconstruções complexas com transferência de tecido de uma parte do corpo para outra — os chamados retalhos livres.
Também fazem parte da atuação do cirurgião plástico o diagnóstico e o tratamento de anomalias vasculares — alterações na formação dos vasos sanguíneos e linfáticos presentes desde o nascimento ou desenvolvidas na infância.
Tumores vasculares benignos, comuns em bebês, formados por crescimento anormal de vasos sanguíneos. Muitos regridem espontaneamente, mas alguns exigem acompanhamento, medicação ou tratamento cirúrgico ou a laser, dependendo do tamanho e da localização.
Alterações no desenvolvimento das veias, presentes desde o nascimento, que podem causar aumento de volume, dor e alterações estéticas na região afetada. O tratamento pode envolver escleroterapia, cirurgia ou a associação das duas técnicas.
Também conhecidas popularmente como “manchas vinho do porto”, são alterações dos pequenos vasos da pele presentes desde o nascimento, tratadas principalmente com laser e, em alguns casos, cirurgia.
Conexões anômalas diretas entre artérias e veias, sem a rede de capilares intermediária, o que pode aumentar o fluxo sanguíneo na região, causando dor e sangramentos. É a malformação vascular mais complexa de tratar, geralmente exigindo abordagem combinada com embolização e cirurgia.
O lipedema é uma doença crônica do tecido adiposo que causa acúmulo desproporcional de gordura, principalmente em pernas e braços, com dor e sensibilidade ao toque, e não responde a dieta e exercício da mesma forma que o excesso de peso comum. O tratamento cirúrgico é feito por lipoaspiração específica para lipedema — com técnicas menos agressivas aos vasos linfáticos — e, em alguns casos, ressecção do tecido em excesso.
Indicado para queda de cabelo por alopecia androgenética ou cicatricial, o transplante capilar consiste em retirar folículos pilosos de uma área doadora (geralmente a região posterior do couro cabeludo) e implantá-los na área com rarefação, pelas técnicas FUE (extração unidade a unidade) ou FUT (remoção de uma faixa de couro cabeludo).
A cirurgia plástica estética busca aprimorar a aparência sem uma doença de base, respeitando as características individuais de cada paciente. Veja os principais procedimentos da face.
Popularmente chamada de “lifting facial” ou “puxadinho”, a ritidoplastia é a cirurgia que reposiciona e tensiona os tecidos moles do rosto e do pescoço — pele, gordura e músculo —, atenuando a flacidez e as marcas do tempo, sem alterar as expressões naturais do rosto quando bem indicada e executada.
A rinoplastia remodela o nariz, ajustando forma, tamanho e proporção com o restante da face. Pode ser estética, funcional — quando corrige dificuldades respiratórias, como o desvio de septo — ou as duas coisas ao mesmo tempo.
Área que reúne tratamentos não cirúrgicos de rejuvenescimento e correção facial, como toxina botulínica (para linhas de expressão), preenchedores à base de ácido hialurônico (para volume e contorno), bioestimuladores de colágeno e tecnologias como laser, radiofrequência e ultrassom microfocado — os mesmos recursos utilizados pela dermatologia, também incorporados à prática do cirurgião plástico.
Além do uso estético, a toxina botulínica é aplicada no tratamento da hiperidrose (suor excessivo) em axilas, palmas das mãos e plantas dos pés, bloqueando temporariamente a atividade das glândulas sudoríparas na região tratada.
Lipomas são tumores benignos de gordura, que se formam sob a pele e costumam ser indolores. A remoção cirúrgica é simples e indicada quando o lipoma cresce, incomoda ou gera dúvida diagnóstica.
Tecido mamário que se desenvolve fora da posição usual das mamas, mais comumente na região da axila, podendo aumentar de volume, causar desconforto e alterar o contorno corporal. A remoção cirúrgica trata tanto o desconforto quanto a questão estética.
A ginecomastia é o aumento da glândula mamária no homem, causado por alterações hormonais, uso de determinadas medicações, esteroides anabolizantes ou outras condições. O tratamento cirúrgico — a adenomastectomia — remove o excesso de tecido glandular, e pode ser associado à lipoaspiração quando há também excesso de gordura na região.
A cirurgia de mamas está entre os procedimentos mais realizados pela especialidade, com técnicas específicas para cada objetivo — com prótese ou sem prótese, dependendo da avaliação individual.
Aumenta o volume das mamas com o uso de prótese de silicone ou, em alguns casos, com lipoenxertia (gordura do próprio corpo), sendo indicada para hipotrofia mamária, assimetrias ou perda de volume após gestação e amamentação.
Reduz o volume das mamas em casos de hipertrofia mamária, aliviando sintomas como dor nas costas e no pescoço, além de reposicionar a mama e a aréola.
É a cirurgia de levantamento da mama, indicada para tratar a ptose mamária (mama caída), reposicionando o tecido e a aréola. Pode ser feita isoladamente ou associada a uma prótese, quando também há perda de volume — com ou sem uso de implante, conforme o caso.
Devolve forma e volume à mama após mastectomia, com técnicas que vão de próteses e expansores a retalhos de tecido próprio — uma das frentes em que a cirurgia estética e a reparadora se encontram.
Técnica que utiliza gordura retirada de outras áreas do corpo, por lipoaspiração, para complementar ou aumentar o volume das mamas de forma mais natural, sem uso de prótese, indicada em casos selecionados.
O abdômen e o corpo reúnem o maior número de técnicas dentro da cirurgia plástica estética, combinadas conforme a quantidade de gordura, a qualidade da pele e o objetivo de cada paciente.
Remove o excesso de pele e gordura do abdômen e tensiona a musculatura abdominal — quando há diástase, o afastamento dos músculos retos —, sendo uma das cirurgias mais procuradas após gestações ou grandes perdas de peso.
Variação da abdominoplastia indicada para excessos maiores de pele, que se estendem verticalmente pelo abdômen — a cicatriz, além da linha horizontal, inclui uma linha vertical, com formato semelhante a uma âncora.
Aborda a circunferência completa do tronco — abdômen, flancos e região lombar — em uma única cirurgia, indicada principalmente para pacientes com grande excesso de pele após emagrecimento importante, com ou sem lipoaspiração associada.
Remove o excesso de gordura localizada e afina o contorno corporal, sem necessariamente marcar a musculatura, indicada para quem busca suavizar o contorno do corpo.
Além de remover gordura, esculpe e realça os contornos musculares, criando um aspecto mais definido, indicada para pacientes com pouca gordura corporal e boa qualidade de pele.
Gordura retirada por lipoaspiração de uma área é processada e reinjetada em outra região do corpo — glúteos, mamas, face, mãos —, somando a remoção de gordura indesejada ao ganho de volume onde é necessário.
Técnica que utiliza pequenos enxertos de gordura posicionados estrategicamente sobre a musculatura para acentuar o relevo muscular, complementando o resultado da lipoaspiração de alta definição.
Após grandes perdas de peso — por cirurgia bariátrica, uso de canetas emagrecedoras ou mudança de hábitos — é comum sobrar excesso de pele em diferentes regiões do corpo, sem elasticidade suficiente para se retrair sozinha. A cirurgia plástica do contorno corporal trata esse excesso, muitas vezes nos braços, nas costas, na barriga e nas coxas.
Remove o excesso de pele flácida dos braços, comum após grandes perdas de peso, através de uma cicatriz que acompanha a face interna do braço.
Segue os mesmos princípios da abdominoplastia convencional ou em âncora, mas costuma remover volumes maiores de pele e tecido, comuns após perdas de peso expressivas — por cirurgia bariátrica ou uso de canetas emagrecedoras.
Trata o excesso de pele que se estende pelo abdômen inferior, flancos, quadris, região lombar e parte superior das coxas em um único procedimento circunferencial, comum após grandes emagrecimentos.
Remodela os glúteos, podendo levantar e firmar a região com retirada do excesso de pele, com ou sem uso de implante de silicone glúteo, tratando tanto a flacidez quanto a perda de projeção após o emagrecimento.
Não. A especialidade reúne duas grandes áreas: a reparadora (ou reconstrutora), que trata alterações causadas por doenças, traumas e malformações, e a estética, voltada ao aprimoramento da aparência. Muitos cirurgiões plásticos atuam nas duas frentes.
Não necessariamente. Dentro da especialidade existem áreas de maior interesse e experiência — como cirurgia de mamas, contorno corporal, microcirurgia ou cirurgia facial. Vale perguntar sobre a experiência do cirurgião no procedimento específico que você busca.
A lipoaspiração é uma técnica cirúrgica de remoção de gordura usada para diferentes finalidades — inclusive no tratamento do lipedema, que é uma doença específica do tecido adiposo, com técnica e cuidados próprios, diferentes da lipoaspiração estética convencional.
Somente uma consulta presencial, com avaliação clínica individualizada, permite indicar o procedimento — ou a combinação de procedimentos — mais adequado para cada paciente.
Este conteúdo é educativo e não substitui uma avaliação médica. Cada caso é único, e a indicação do procedimento mais adequado depende de exame clínico presencial.
Dra. Julia Facchi · CRM-SP 220.746 · RQE 146.320