Ciência & Contorno Corporal
A forma como o paciente emagreceu influencia o risco da cirurgia plástica? Um estudo com 1.002 pacientes comparou cirurgia bariátrica, agonistas GLP-1, combinação dos dois e mudança do estilo de vida.
Por Dra. Júlia Facchi · CRM-SP 220.746 / RQE 146.320
A principal conclusão foi direta: não foi demonstrada associação estatisticamente significativa entre o método de perda de peso e as complicações precoces após o contorno corporal. O estado clínico do paciente no momento da cirurgia — especialmente o IMC e a presença de diabetes — pareceu mais informativo do que a maneira pela qual ele perdeu peso.
O artigo Post Weight Loss Body Contouring Surgery: Complication Rates Following Bariatric Surgery, Injectable Glucagon-like Peptide-1 Receptor Agonist Pharmacotherapy, Combination Therapy, and Lifestyle Modification, de Abbott e colaboradores, foi publicado no Aesthetic Surgery Journal em 2026.
Trata-se de uma coorte retrospectiva, observacional e unicêntrica do Vanderbilt University Medical Center, com pacientes operados entre janeiro de 2019 e dezembro de 2024. Todos apresentavam peso estável havia pelo menos seis meses, e o acompanhamento mínimo foi de 90 dias.
| Método de emagrecimento | Pacientes | Proporção |
|---|---|---|
| Cirurgia bariátrica | 680 | 67,9% |
| Agonista GLP-1 | 78 | 7,8% |
| Bariátrica + agonista GLP-1 | 101 | 10,1% |
| Mudança do estilo de vida | 143 | 14,3% |
Os procedimentos incluíram paniculectomia, braquioplastia, cruroplastia e cirurgias mamárias. Foram analisadas, em até 90 dias, infecção do sítio cirúrgico, deiscência, necrose cutânea, seroma, hematoma e retorno ao centro cirúrgico.
A modalidade de emagrecimento não apresentou associação estatisticamente significativa com a ocorrência de complicações.
Nesta população selecionada e com peso estável, pacientes que emagreceram com agonistas GLP-1 não apresentaram maior frequência de complicações do que aqueles que emagreceram após bariátrica, pela combinação dos dois métodos ou por mudanças no estilo de vida.
Os intervalos de confiança de 95% não foram apresentados de maneira consistente no texto principal, limitando a avaliação da precisão dessas estimativas.
Entre os procedimentos estudados, a cruroplastia apresentou a maior frequência de complicações: 36,1%. A deiscência ocorreu em 25,3% dos casos.
Os pacientes com complicações apresentavam IMC cirúrgico maior: 37,1 versus 31,1 kg/m² (P=0,009). O achado reforça que a avaliação deve considerar tanto as condições clínicas quanto o procedimento planejado.
A ausência de diferença estatística não comprova que os quatro métodos sejam equivalentes. O estudo pode não ter poder suficiente para detectar diferenças pequenas ou moderadas, especialmente porque somente 78 pacientes pertenciam ao grupo GLP-1.
P>0,05 não demonstra equivalência.
O uso prévio de agonistas GLP-1, isoladamente, não deve definir o risco cirúrgico. A avaliação pré-operatória precisa considerar:
Mais do que perguntar “como o paciente emagreceu?”, talvez a pergunta mais útil seja: em que condições ele chegou à cirurgia?
Neste estudo, não houve associação estatisticamente significativa entre o método de emagrecimento e as complicações em até 90 dias. Isso não prova equivalência absoluta e não substitui a avaliação individual.
O estudo incluiu pacientes com peso estável havia pelo menos seis meses. Seus resultados não demonstram segurança para operar durante a fase ativa de perda ponderal.
IMC mais elevado no momento da cirurgia e diabetes foram os principais preditores independentes de eventos adversos.
O estudo não teve detalhamento e poder suficientes para comparar adequadamente medicamentos específicos.
A cirurgia após emagrecimento deve ser planejada com base nas condições atuais do paciente, na estabilidade do peso, no estado nutricional e na extensão do procedimento.
Dra. Júlia Facchi — Cirurgiã Plástica, CRM-SP 220.746 / RQE 146.320. Residência em Cirurgia Geral e Cirurgia Plástica pela UNICAMP, fellowship em Contorno Corporal pela FMUSP, membro da SBCP. Este conteúdo tem caráter educativo e não substitui consulta médica presencial.
Referência: Abbott EN et al. Aesthetic Surgery Journal. 2026;46(9):1029-1036. DOI: 10.1093/asj/sjag049.